
Aderbal Freire-Filho escreveu: “Não seria melhor esse mundo, tendo ao lado de um McDonald’s um Hamlet? (Salta um Polônio e duas Ofélias…!)” Seria melhor, Sr. Freire-Filho. Principalmente se todos os Hamlets fossem tão bem apresentados como o que está em cartaz no Oi Casa Grande, até dia 31 de maio. Com Wagner Moura protagonizando o príncipe agonizante, Tonico Pereira, Georgiana Góes, Fábio Lago e Mateus Solano, o “palco de todas as possibilidades” ganha vida e nos prende a atenção por 180 minutos (com um “intervalinho, bem rapidinho mesmo, de 10 minutinhos”, como disse o próprio Wagner Moura). Com a divisão posta em 1°, 2° e 3° atos – intervalo – 4° e 5° atos, Hamlet vai dizer que a questão é ser ou não ser, e que as mulheres usam maquiagem demais.
Ao chegar na sala de teatro, já é possível ver que este não é só mais um Hamlet. Não, este é um Hamlet contemporâneo, jovem, com um cenário simples, exposto, externo — e uma grande tela de projeção. Quando a peça se inicia, e os atores tomam o palco, neles vêm uma jovialidade e uma leveza que se transcrevem no figurino à la Osklen, e também a tensão, a apreensão e a seriedade que um shakesperiano requer, traduzida na trilha composta por Rodrigo Amarante.
E aí o Príncipe abre a boca – e é quando começa o espetáculo. Vem ele, com aquela postura de quem não quer nada — ar jovial, meio psicótico, bastante debochado — e lá pelas tantas, ao encontrar o fantasma do pai, resolve pelo teatro agarrar a consciência do rei. Sim, ele quer agarrar a consciência — nada de “the play’s the thing wherein I’ll catch the consciense of the King”. É, Shakespeare… você está no Rio de Janeiro do Século XXI.
O Príncipe não se propõe a ser fino, mas irônico; é elegante sem querer ser; é forte sendo debochado, e triste sendo engraçado. É Príncipe porque está no topo – e é homem comum, que ama, chora, sofre (e saliva).
Mas nada que eu diga sobre este Hamlet – criação que combina uma energia extraordinária, coração rasgado e inteligência brilhante – pode se comparar com a experiência de vê-lo com seus próprios olhos. Falando em olhos, é difícil até piscá-los enquanto a tragédia acontece.
Mateus Solano também merece elogios, pois sua interpretação de Horácio me fez derramar lágrimas sinceras — não que nos (muitos) minutos que antecederam o último ato eu já não estivesse com a emoção transbordando da retina.
Ver o poema em ação, mais do que quando lido, possibilita um maior conhecimento do homem e suas possibilidades, suas fraquezas, forças, instintos, misérias, nobrezas — conhecer-se; conhecer-me. Ontem, conheci-me. E, se você tiver a oportunidade, também deve ir lá conhecer-se e reconhecer-se, num Hamlet de calça sarouel ou numa Ofélia de casaqueto.